Modelos Econômicos do Banco do Canadá

Como o ToTEM III molda a política monetária em uma economia dependente de commodities

Entendendo os desafios e a abordagem exclusivos da modelagem canadense

Modelos Econômicos do Banco do Canadá

Análise técnica do modelo DSGE ToTEM III e do arcabouço de pesquisa

Documentação abrangente da metodologia de modelagem e calibração

Visão Geral da Página

O Banco do Canadá utiliza o ToTEM III — Terms-of-Trade Economic Model, versão III — como seu principal arcabouço para análise de política monetária e projeção de resultados econômicos. Esta página examina como o modelo aborda a estrutura econômica distintiva do Canadá: forte dependência de commodities, endividamento significativo das famílias, integração comercial estreita com os Estados Unidos e disparidades econômicas regionais que desafiam a projeção baseada em um único modelo.

Visão Geral da Documentação do Modelo

Esta página fornece uma análise técnica abrangente do modelo DSGE ToTEM III do Banco do Canadá, incluindo especificações estruturais, metodologia de calibração e análise comparativa com modelos de outros bancos centrais. Foco nas características de economia pequena e aberta e na integração do setor de commodities.

Sumário

O que é o ToTEM III?

O Arcabouço de Política do Banco do Canadá

O ToTEM III — Terms-of-Trade Economic Model, terceira geração — é a principal ferramenta quantitativa do Banco do Canadá para análise de política e projeção. Desenvolvido ao longo de quinze anos e substancialmente revisado em 2021, ele representa o entendimento acumulado do Banco sobre como a economia canadense opera de forma diferente das demais economias avançadas.

O modelo se apoia na teoria econômica, mas incorpora características específicas da realidade canadense. Enquanto os modelos padrão pressupõem uma economia fechada dominada por fatores domésticos, o ToTEM III reconhece que o PIB do Canadá oscila substancialmente com os preços das commodities, que os balanços das famílias estão pressionados pela dívida habitacional e que as condições econômicas dos EUA muitas vezes importam mais para o crescimento canadense do que as decisões de política doméstica.

Entender o ToTEM III é importante porque ele molda diretamente a política. Quando você lê no Relatório de Política Monetária do Banco que a inflação deve cair para 2,5% até meados de 2025, essa projeção reflete a avaliação do ToTEM III sobre como diversas forças econômicas — crescimento salarial, demanda do consumidor, preços de energia, movimentos cambiais — vão interagir. O modelo não toma decisões, mas estrutura como os formuladores de política pensam sobre trade-offs e riscos.

Por que o Canadá Precisa de um Modelo Especializado

O Banco do Canadá não pode simplesmente pegar emprestados os modelos do Federal Reserve e adaptá-los para dados canadenses. A economia do Canadá funciona de maneira fundamentalmente diferente, exigindo escolhas de modelagem que reflitam três realidades centrais:

Dependência de commodities: energia e mineração respondem por cerca de 11% do PIB canadense, mas geram oscilações muito maiores na renda nacional quando os preços se movem. O colapso do preço do petróleo em 2014-2016 empurrou Alberta para a recessão enquanto deixou Ontário relativamente ileso — modelos padrão que tratam a economia como homogênea não conseguiriam captar essa divergência. O ToTEM III modela explicitamente a produção de commodities com preços definidos nos mercados globais, permitindo ao Banco projetar como choques de termos de troca se propagam de forma diferente entre regiões e setores.

Endividamento das famílias: as razões dívida/renda das famílias canadenses superam consistentemente as dos Estados Unidos desde meados dos anos 2000, impulsionadas pela dinâmica do mercado imobiliário em Vancouver e Toronto. Quando o Banco eleva as taxas de juros, o aumento das prestações hipotecárias atinge as famílias canadenses com mais força do que um aperto comparável afeta os americanos — muitos dos quais fixaram hipotecas de trinta anos a juros baixos. O ToTEM III distingue entre famílias "pacientes", com poupança substancial, e tomadoras "impacientes", restringidas pela dívida, capturando essas respostas assimétricas às mudanças de taxa.

Integração comercial: cerca de 75% das exportações canadenses vão para os Estados Unidos, tornando o ciclo de negócios do Canadá fortemente correlacionado com o crescimento americano. Mas a relação não é simétrica — mudanças na taxa de política canadense têm impacto mínimo nas condições dos EUA, enquanto decisões do Fed transbordam imediatamente via taxa de câmbio e fluxos de capital transfronteiriços. O ToTEM III modela o Canadá como uma "economia pequena e aberta" na qual as condições externas são exógenas, refletindo essa dependência assimétrica.

A Evolução para a Versão III

O lançamento do ToTEM III em 2021 abordou deficiências específicas identificadas ao longo da década de 2010. A Versão II tinha dificuldade em reproduzir a dinâmica observada dos preços imobiliários e subestimava o impacto dos custos de serviço da dívida sobre o consumo. A crise financeira revelou que modelos que tratam todas as famílias como idênticas perdiam canais críticos de transmissão — aumentos de juros prejudicavam imediatamente os tomadores alavancados, enquanto mal afetavam os poupadores. O arcabouço tomador-poupador da Versão III, estimado com dados do mercado hipotecário canadense, melhorou substancialmente a capacidade do modelo de projetar as respostas do consumo às mudanças de taxa.

Visão Geral do Modelo ToTEM III

Classificação e Especificações do Modelo

Nome Completo: Terms-of-Trade Economic Model, Terceira Geração
Tipo: Modelo de Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico (DSGE) de economia aberta
Em Operação Desde: 2021 (substituindo o ToTEM II)
Método de Estimação: estimação bayesiana com priors informativos

Principais Especificações Técnicas:

  • Setores: arcabouço multissetorial com commodities, manufatura, serviços e habitação
  • Agentes: famílias heterogêneas (tomadoras/poupadoras), firmas otimizadoras, governo
  • Fricções: rigidezes nominais, fricções financeiras, custos de ajustamento
  • Expectativas: expectativas racionais consistentes com o modelo
  • Regras de Política: funções de reação de política monetária e fiscal endógenas

Inovações do ToTEM III

Recursos Aprimorados em Relação ao ToTEM II

1. Heterogeneidade das Famílias: distinção explícita tomador-poupador com elasticidades intertemporais diferentes

2. Integração do Mercado Imobiliário: determinação endógena do preço dos imóveis com dinâmica de investimento habitacional

3. Fricções Financeiras: restrições de crédito às famílias vinculadas à garantia imobiliária

4. Estimação Aprimorada: metodologia bayesiana com conjunto ampliado de variáveis observáveis

5. Desagregação de Exportações: distinção entre exportações de commodities e não commodities

Informações de Versão do Modelo

Versão Atual: ToTEM III (2021-presente)
Frequência da Base de Dados: trimestral (1981T1-presente)
Horizonte de Projeção: 3-4 anos à frente
Plataforma Computacional: implementação em MATLAB/Dynare

Como os Modelos Canadenses Evoluíram

Cinco Décadas de Desenvolvimento de Modelos

A infraestrutura de modelagem do Banco do Canadá não surgiu de repente — ela evoluiu por meio de fases distintas, cada uma respondendo a falhas práticas de projeção e a avanços metodológicos na macroeconomia. Entender essa evolução revela como crises econômicas e erros de política impulsionam a inovação em modelagem, e por que nenhum arcabouço isolado jamais se mostra suficiente.

1970-1993
Modelos Econométricos de Grande Escala: Série RDX

Contexto: os modelos RDX (Research Department eXperimental) representaram os primeiros arcabouços sistemáticos de projeção do Banco. O RDX1 (1972) continha mais de 2.000 equações estimadas a partir de dados históricos canadenses, tentando capturar todas as relações observáveis entre variáveis econômicas.

Modo de falha: os modelos colapsaram durante o período de estagflação dos anos 1970. Relações estimadas que se mantinham em tempos estáveis — como a curva de Phillips, que liga desemprego e inflação — se rompiam quando choques do petróleo ocorriam. Críticos invocaram a Crítica de Lucas: parâmetros estimados a partir de dados históricos não poderiam ser confiáveis para análise de política caso mudassem quando os regimes de política mudassem.

Legado: apesar de suas limitações, os modelos RDX estabeleceram o compromisso do Banco com a projeção quantitativa e revelaram a inadequação de abordagens puramente estatísticas durante rupturas estruturais.

1993-2005
Quarterly Projection Model (QPM)

Inovação: o QPM marcou uma mudança filosófica em direção a um comportamento otimizador e prospectivo. Em vez de estimar correlações, o QPM derivava equações a partir de pressupostos sobre agentes racionais maximizando utilidade ou lucros. Esse arcabouço "novo-keynesiano" tornou-se o modelo de trabalho do Banco justamente quando o Canadá adotou o regime formal de metas de inflação em 1991.

Insight principal: o QPM reconheceu que compromissos de política críveis afetam o comportamento presente por meio das expectativas. Se as empresas acreditam que o Banco manterá a inflação em 2%, elas precificam de acordo hoje — tornando a meta autorrealizável. Esse canal de expectativas tornou-se central para a política monetária moderna.

Limitação: o QPM tratava o Canadá como uma economia relativamente fechada e agregava a produção em um único setor, deixando de captar a dinâmica de boom-bust das commodities que dominaria o crescimento canadense nos anos 2000.

2005-2015
ToTEM I e II: Modelagem de Termos de Troca

Motivação: o superciclo de commodities de 2000-2008 expôs o ponto cego do QPM. Enquanto o petróleo subia de US$ 30 para US$ 140 por barril, Alberta prosperava enquanto a manufatura de Ontário sofria com a valorização do dólar canadense. Um modelo de setor único não conseguia explicar por que o mesmo aperto de juros afetava as regiões de forma tão diferente.

Estrutura: o ToTEM I (2005) e seu sucessor de 2011, o ToTEM II, introduziram setores explícitos de commodities e manufatura com mecanismos de formação de preços distintos. Os preços das commodities eram tratados como exógenos (determinados nos mercados globais), enquanto a manufatura enfrentava concorrência de importações calibrada para corresponder aos padrões de comércio canadenses.

Lacuna identificada: a crise financeira de 2008 revelou outra fragilidade — ambas as versões do ToTEM presumiam uma "família representativa" com taxas de poupança e balanços idênticos. Na realidade, algumas famílias canadenses carregavam dívida hipotecária massiva enquanto outras detinham ativos substanciais, criando respostas assimétricas às mudanças na taxa de juros que o modelo não captava.

2021-Presente
ToTEM III e o Ecossistema Multimodelo

Revisão importante: o ToTEM III (2021) enfrentou de frente a heterogeneidade das famílias, dividindo a população em "poupadoras pacientes" e "tomadoras impacientes" restringidas pela garantia imobiliária. Essa modificação, inspirada em trabalhos acadêmicos sobre modelos de agentes heterogêneos, melhorou substancialmente as projeções das respostas do consumo às mudanças de taxa.

Arcabouço complementar: reconhecendo que nenhum modelo DSGE isolado se destaca tanto na análise estrutural de política quanto na projeção de curto prazo, o Banco desenvolveu o LENS (2017) — uma abordagem híbrida que combina teoria com flexibilidade estatística para nowcasting. A equipe de política agora confere as projeções do ToTEM III com o LENS e outras ferramentas, aceitando que a incerteza do modelo exige abordagens de ensemble em vez de dependência de um único arcabouço.

O Padrão da Evolução dos Modelos

Cada geração de modelagem respondeu a uma falha de projeção que não poderia ser corrigida por meio da reestimação de parâmetros. Os modelos RDX falharam quando relações estruturais se romperam durante os anos 1970. O QPM deixou passar os ciclos de commodities. O ToTEM II subestimou os efeitos da dívida. Esse padrão sugere limites inerentes à projeção baseada em modelos — a estrutura econômica evolui mais rápido do que os modelos conseguem se adaptar, garantindo que o arcabouço mais avançado de hoje eventualmente se mostrará inadequado para os choques de amanhã.

Histórico de Evolução do Modelo

Evolução Metodológica no Banco do Canadá

O arcabouço de modelagem do Banco evoluiu de modelos econométricos de grande escala para modelos DSGE fundamentados em teoria, refletindo tendências mais amplas na modelagem macroeconômica e lições da experiência de política:

PeríodoModeloMetodologiaPrincipal InovaçãoLimitações
1970-1993Série RDXEconométrico de grande escalaDesagregação setorial detalhadaVulnerabilidade à crítica de Lucas
1993-2005QPMArcabouço otimizadorExpectativas prospectivasDetalhe setorial limitado
2005-2015ToTEM I/IIDSGE com commoditiesChoques de termos de trocaAgente representativo
2015-PresenteToTEM III + LENSAbordagem multimodeloHeterogeneidade das famíliasComplexidade computacional

Mudanças de Paradigma na Modelagem Macroeconômica Canadense

1. Implementação de Metas de Inflação (1991)

A transição da meta monetária para a meta de inflação exigiu modelos com mecanismos explícitos de formação de preços e âncoras nominais críveis. O desenvolvimento do QPM se alinhou a essa mudança no arcabouço de política.

2. Revolução DSGE (anos 2000)

Avanços acadêmicos na metodologia DSGE, particularmente o arcabouço de Smets-Wouters (2003), influenciaram o desenvolvimento do ToTEM. Ênfase em microfundamentos e invariância de política.

3. Lições da Crise Financeira (2008-2009)

A crise destacou a importância das fricções financeiras e dos agentes heterogêneos. O desenvolvimento do ToTEM III incorporou explicitamente essas lições com o arcabouço tomador-poupador.

4. Ecossistema Multimodelo (2015+)

O reconhecimento de que nenhum modelo isolado captura todas as dinâmicas relevantes levou ao desenvolvimento de modelos complementares (LENS) e a abordagens de projeção em ensemble.

Como o Modelo Funciona

A Estrutura Central do ToTEM III

O ToTEM III divide a economia canadense em setores distintos, cada um com características comportamentais e sensibilidades de política diferentes. Essa desagregação importa porque mudanças na taxa de juros afetam vários agentes econômicos de forma diferente — entender essas respostas heterogêneas ajuda o Banco a projetar resultados agregados com mais precisão do que modelos que presumem que todos se comportam da mesma forma.

Heterogeneidade do Setor de Famílias

A inovação mais significativa do modelo em relação a modelos canadenses anteriores é seu tratamento explícito da heterogeneidade financeira das famílias. Em vez de presumir uma única "família representativa", o ToTEM III distingue dois grupos com comportamentos de poupança e restrições fundamentalmente diferentes.

As famílias pacientes mantêm patrimônio financeiro líquido positivo — detêm mais ativos do que dívidas. Essas famílias, que representam cerca de 40% da população, respondem a aumentos de juros elevando a poupança de forma modesta, já que retornos maiores sobre depósitos melhoram sua renda. Seu consumo se ajusta gradualmente às mudanças de política, amortecendo os efeitos imediatos, mas criando persistência.

As famílias impacientes carregam dívida hipotecária substancial e enfrentam restrições de crédito vinculantes atreladas ao valor da garantia imobiliária. Representando cerca de 60% dos canadenses, essas famílias respondem fortemente às mudanças de taxa. Quando o Banco elevou os juros de 0,25% para 5% durante 2022-2023, as tomadoras impacientes viram as prestações hipotecárias mensais saltarem em milhares de dólares, forçando cortes imediatos no consumo. O ToTEM III captura essa transmissão assimétrica ao modelar explicitamente as restrições de crédito — famílias impacientes não conseguem suavizar o consumo ao longo do tempo quando os custos de serviço da dívida disparam, criando os fortes efeitos de curto prazo observados empiricamente.

Essa heterogeneidade gera dinâmicas agregadas que diferem substancialmente das dos modelos de agente representativo. Um aumento de 100 pontos-base na taxa afeta minimamente as famílias pacientes, mas atinge duramente as tomadoras impacientes, com o efeito líquido dependendo da distribuição da população. Conforme a dívida das famílias subiu de 100% para 185% da renda disponível entre 1990 e 2023, a parcela de tomadoras impacientes cresceu, amplificando a transmissão da política monetária por esse canal.

Setor Empresarial e Investimento

As empresas canadenses enfrentam desafios distintos conforme sua exposição a preços de commodities e à concorrência estrangeira. O ToTEM III modela isso separando a produção em setores produtores de commodities (petróleo, gás, mineração, silvicultura), nos quais os preços são definidos nos mercados globais, e setores de orientação doméstica (construção, serviços, manufatura não commodity), nos quais as condições de demanda canadenses predominam.

O investimento no setor de commodities responde principalmente às expectativas de preços globais, e não às taxas de política do Banco do Canadá. Quando os preços do petróleo caíram de US$ 105 para US$ 26 por barril durante 2014-2016, empresas de energia de Alberta cortaram gastos de capital em 45%, independentemente das baixas taxas de juros canadenses — porque a economia do projeto dependia dos mercados globais de petróleo bruto, não dos custos de financiamento doméstico. O ToTEM III trata os preços de commodities como exógenos, reconhecendo que a política monetária doméstica não consegue compensar choques de termos de troca originados no exterior.

O investimento empresarial não relacionado a commodities responde de forma mais convencional às taxas de juros por meio dos canais de custo de capital. Taxas mais altas aumentam os custos de financiamento de projetos de expansão, reduzindo os valores presentes líquidos e adiando o investimento. Mas mesmo aqui, as empresas canadenses enfrentam restrições ausentes em modelos de economia fechada: a valorização cambial persistente durante os booms de commodities corrói a competitividade da manufatura, deprimindo o investimento mesmo quando a demanda doméstica permanece forte.

Vínculos com o Setor Externo

O status de economia pequena e aberta do Canadá cria dependências que restringem a eficácia da política. Com 75% das exportações destinadas aos Estados Unidos, os ciclos de negócios canadenses se correlacionam fortemente com o crescimento americano — recessões nos EUA inevitavelmente transbordam via redução da demanda por exportações. O ToTEM III trata as variáveis dos EUA como exógenas, refletindo essa relação assimétrica em que a política do Fed afeta substancialmente o Canadá, mas as ações do Banco do Canadá mal aparecem nos dados dos EUA.

A taxa de câmbio serve como principal mecanismo de ajuste que conecta as condições canadenses e estrangeiras. Quando o Banco corta as taxas abaixo dos níveis do Fed, o dólar canadense tipicamente se deprecia, melhorando a competitividade das exportações, mas elevando os custos de importação e a inflação. A condição de paridade de juros descoberta do ToTEM III permite prêmios de risco variáveis no tempo — investidores às vezes exigem retornos maiores para deter ativos canadenses em períodos de incerteza elevada, rompendo temporariamente a relação mecânica do diferencial de taxa de juros.

Essa dependência externa limita a autonomia de política. O Banco não pode manter taxas de juros muito abaixo dos níveis dos EUA indefinidamente sem provocar saídas de capital e fraqueza cambial que alimentam a inflação. Por outro lado, manter taxas substancialmente acima dos níveis dos EUA atrai entradas de capital que valorizam o dólar e prejudicam os exportadores. O ToTEM III captura essas restrições, ajudando os formuladores de política a avaliar a margem viável para uma política monetária independente diante das condições externas.

Estrutura e Arcabouço do Modelo

Arquitetura do Modelo DSGE

O ToTEM III emprega um arcabouço DSGE de economia pequena e aberta com os seguintes elementos estruturais centrais:

Heterogeneidade do Setor de Famílias:

  • Famílias Pacientes (Poupadoras): βs = 0,995, fator de desconto mais alto
  • Famílias Impacientes (Tomadoras): βb = 0,975, sujeitas a restrições de crédito
  • Parcelas Populacionais: calibradas para corresponder à distribuição de riqueza e à participação no mercado hipotecário
  • Função de Utilidade: separável em consumo, serviços habitacionais e oferta de trabalho

Principais Equações Comportamentais

Equações de Euler das Famílias

Poupadoras: λs,t = βs Ets,t+1 Rt+1 / πt+1]

Tomadoras: λb,t = βb Etb,t+1 Rt+1 / πt+1] + μt Rt+1 / πt+1

Onde μt é o multiplicador de Lagrange sobre a restrição de crédito

Tecnologia de Produção e Estrutura Setorial

Arcabouço de Produção Multissetorial
1. Setor de Bens de Consumo

Yc,t = Ac,tc Kc,t-1ρc + (1-αc) (zt Lc,t)ρc]1/ρc

2. Setor de Bens de Investimento

Tecnologia de produção separada com choques de produtividade específicos do setor e razões capital-trabalho

3. Setor de Commodities

Tecnologia de extração de recursos com efeitos de depleção e repasse do preço de commodities

4. Setor Habitacional

Investimento residencial com insumos específicos de construção e restrições de terreno

Rigidezes Nominais e Reais

Tipo de FricçãoMecanismoCalibraçãoPapel Econômico
Rigidez de PreçosPrecificação de Calvoθp = 0,75Persistência da inflação
Rigidez SalarialFormação salarial de Calvoθw = 0,65Dinâmica do mercado de trabalho
Ajustamento do InvestimentoCustos quadráticosκ = 4,0Acumulação suave de capital
Restrições de CréditoGarantia imobiliáriam = 0,85Acelerador financeiro

Diferentes Partes da Economia

Os Blocos de Construção da Economia Canadense

O ToTEM III divide a economia do Canadá em diferentes "setores" - pense neles como bairros diferentes de uma cidade, cada um com sua própria personalidade e regras:

Setores Econômicos do Canadá no ToTEM III
Bens de Consumo
Bens de Investimento
Serviços Governamentais
Exportações
Petróleo e Gás
Mineração
Habitação

Heterogeneidade Setorial e Transmissão de Política

A desagregação setorial do ToTEM III aborda um desafio fundamental da política monetária canadense: os choques afetam diferentes regiões e indústrias de forma assimétrica, criando trade-offs que modelos de setor único não conseguem capturar. O colapso do preço do petróleo em 2014-2016 ilustrou isso claramente — a taxa de desemprego de Alberta saltou de 4,5% para 8,6%, enquanto a de Ontário permaneceu estável, ainda que o Banco do Canadá defina uma única taxa de juros nacional. Entender essas dinâmicas divergentes ajuda os formuladores de política a avaliar se os indicadores agregados mascaram tensões subjacentes.

Dinâmica do Setor de Commodities

Petróleo, gás e mineração respondem por cerca de 11% do PIB canadense, mas geram volatilidade desproporcional na renda nacional e na taxa de câmbio. Os preços das commodities são determinados nos mercados globais — a produção canadense representa parcelas pequenas da oferta mundial —, tornando a política doméstica ineficaz para compensar choques de termos de troca. Quando o petróleo caiu de US$ 105 para US$ 26 por barril durante 2014-2016, as empresas de energia de Alberta cortaram emprego e gastos de capital imediatamente, independentemente da resposta acomodatícia da taxa de juros do Banco do Canadá.

O ToTEM III trata os preços de commodities como exógenos, com a produção do setor respondendo à rentabilidade aos preços mundiais vigentes. Essa especificação reconhece a realidade: a política monetária não consegue estabilizar regiões dependentes de commodities que enfrentam choques globais de preços. O modelo, em vez disso, foca em capturar os transbordamentos — como as mudanças na renda do setor de commodities afetam a demanda agregada por meio do emprego, do investimento empresarial e dos ajustes cambiais.

Sensibilidades do Setor Habitacional

A construção residencial e os serviços habitacionais juntos respondem por 15-18% do PIB canadense, com o investimento residencial altamente sensível às taxas de juros por meio dos custos de financiamento hipotecário e da acessibilidade habitacional. O ToTEM III modela o investimento habitacional como uma resposta à valorização esperada dos preços dos imóveis e às mudanças na taxa hipotecária, com defasagens típicas de 2 a 4 trimestres entre os ajustes de taxa e a atividade de construção.

O duplo papel do setor habitacional — como bem de investimento e bem de consumo — cria canais de transmissão complexos. Taxas mais altas deprimem o investimento habitacional diretamente por meio do aumento dos custos de financiamento, mas também afetam a riqueza e o consumo dos proprietários existentes por meio dos ajustes no preço dos imóveis. Com as razões dívida/renda das famílias canadenses ultrapassando 180%, esses efeitos riqueza amplificam a resposta do consumo agregado à política monetária além dos efeitos diretos de renda.

Manufatura e Exposição Cambial

A manufatura canadense — concentrada em Ontário e Quebec — enfrenta ventos contrários persistentes decorrentes da valorização cambial durante os booms de commodities. O período de 2002-2012 exemplificou essa dinâmica de "doença holandesa": a alta dos preços de petróleo e metais valorizou o dólar canadense de 63 centavos para a paridade com o dólar americano, corroendo a competitividade da manufatura. Ontário perdeu cerca de 300 mil empregos industriais nesse período, mesmo enquanto o emprego no setor de recursos de Alberta disparava.

O ToTEM III captura essa tensão intersetorial por meio da determinação endógena da taxa de câmbio. Aumentos nos preços de commodities valorizam o dólar, prejudicando os exportadores de manufatura, mas reduzindo os custos de importação para os consumidores. O Banco precisa equilibrar o apoio às regiões manufatureiras em dificuldade contra a prevenção do superaquecimento nas áreas produtoras de commodities — um trade-off que modelos padrão que presumem homogeneidade setorial não conseguem representar.

Decomposição Setorial

Estrutura de Produção Multissetorial

O ToTEM III emprega uma estrutura de produção desagregada para capturar a heterogeneidade setorial nas tecnologias de produção, no comportamento de formação de preços e nos vínculos externos:

Especificações Setoriais Detalhadas

1. Setor de Bens de Consumo

Tecnologia: função de produção CES com substituição capital-trabalho

Formação de Preços: precificação escalonada de Calvo com indexação à inflação

Comércio: agregação de Armington entre variedades domésticas e importadas

Pc,t1-η = αc Pc,h,t1-η + (1-αc) Pc,f,t1-η

2. Setor de Bens de Investimento

Tecnologia: choques de produtividade específicos do setor e custos de ajustamento

Fontes de Demanda: investimento empresarial, investimento residencial, investimento governamental

Integração Internacional: alto conteúdo importado, foco em máquinas e equipamentos

3. Setor de Commodities

Extração de Recursos: tecnologia Cobb-Douglas com insumos de recursos naturais

Determinação de Preços: comportamento de tomador de preços de economia pequena e aberta

Orientação para Exportação: destinada principalmente a mercados internacionais

Nota de Calibração: a parcela do setor de commodities é calibrada para corresponder a uma média de 10-12% do PIB, com parâmetros de volatilidade estimados a partir do preço do petróleo WTI e de índices de preços de metais.

Vínculos e Transbordamentos Setoriais

SetorParcela do PIB (%)Intensidade ExportadoraConcorrência de ImportaçõesSensibilidade à Taxa
Bens de Consumo35-40BaixaAltaMédia
Bens de Investimento15-20MédiaMuito AltaMuito Alta
Commodities10-12Muito AltaBaixaBaixa
Serviços Habitacionais12-15NenhumaNenhumaMuito Alta

Estrutura Insumo-Produto

Dependências Intersetoriais

O ToTEM III incorpora vínculos insumo-produto por meio de:

  • Insumos Intermediários: as funções de produção setoriais incluem insumos de outros setores
  • Custos de Energia: choques no preço de commodities se transmitem por meio dos custos de insumos energéticos
  • Mobilidade da Mão de Obra: trabalhadores podem migrar entre setores, sujeitos a custos de ajustamento
  • Realocação de Capital: capital específico do setor com mobilidade limitada no curto prazo

O que Torna o Canadá Especial

A Estrutura Econômica do Canadá

As escolhas de design do ToTEM III refletem três características estruturais que distinguem o Canadá das demais economias do G7. Não se trata de detalhes periféricos — são características centrais que impulsionam a volatilidade macroeconômica e restringem a eficácia da política de maneiras que não se aplicariam aos Estados Unidos, à zona do euro ou ao Japão.

Três Características Definidoras

1. Dependência de Commodities e Volatilidade dos Termos de Troca

O Canadá figura como o quarto maior produtor de petróleo do mundo e detém reservas substanciais de potássio, urânio e diversos metais. Embora energia e mineração respondam por cerca de 11% do PIB, sua influência sobre a renda nacional excede em muito essa parcela, pois os preços das commodities oscilam violentamente enquanto os preços de bens manufaturados e serviços permanecem relativamente estáveis.

Considere o colapso do preço do petróleo em 2014-2016, quando o petróleo West Texas Intermediate caiu de US$ 105 para US$ 26 por barril. A economia de Alberta se contraiu fortemente — o desemprego subiu de 4,5% para 8,6% — enquanto consumidores em Ontário e Quebec se beneficiaram da gasolina mais barata. O Banco do Canadá enfrentou um trade-off impossível: cortar as taxas para apoiar Alberta arriscava superaquecer o restante do país, enquanto manter as taxas estáveis aprofundava a recessão em Alberta.

O ToTEM III modela isso explicitamente ao tratar os preços de commodities como exógenos (determinados nos mercados globais), ao mesmo tempo que permite que a taxa de câmbio se ajuste endogenamente. Quando os preços do petróleo sobem, o dólar canadense tipicamente se valoriza por meio de um mecanismo de "doença holandesa" — a receita de exportação de commodities eleva a demanda pela moeda, tornando a manufatura menos competitiva. O modelo quantifica esse trade-off, ajudando os formuladores de política a avaliar se os booms de commodities justificam tolerar a fraqueza da manufatura.

2. Dívida das Famílias e Efeitos Riqueza Habitacionais

As razões dívida/renda disponível das famílias canadenses atingiram 186% até 2023, superando consistentemente os níveis dos EUA desde 2005. Isso não foi impulsionado por dívida de cartão de crédito ou financiamento de automóveis — reflete a dinâmica do mercado imobiliário em Vancouver e Toronto, onde os preços subiram mais de 400% entre 2000 e 2022 antes de corrigirem. A dívida hipotecária responde por cerca de 70% dos passivos das famílias, criando sensibilidade aguda às mudanças na taxa de juros.

O mecanismo de transmissão importa criticamente. A maioria das hipotecas canadenses tem prazos de cinco anos ou menos, o que significa que os tomadores refinanciam com frequência. Quando o Banco elevou as taxas de 0,25% para 5% durante 2022-2023, o choque de renovação hipotecária atingiu imediatamente — famílias que financiaram hipotecas de US$ 500 mil a 2% de repente enfrentaram taxas de 5,5% na renovação, adicionando mais de US$ 1.500 mensais aos custos de serviço da dívida. Famílias americanas com hipotecas fixas de trinta anos não sentiram esse choque.

O arcabouço tomador-poupador do ToTEM III captura essa assimetria. As famílias "impacientes", restringidas pela dívida e enfrentando limites vinculantes de razão empréstimo-valor, cortam o consumo bruscamente quando as taxas sobem. As poupadoras "pacientes", detendo ativos em vez de passivos, aumentam os gastos de forma modesta conforme os retornos sobre depósitos melhoram. O efeito líquido depende da distribuição entre esses grupos — um parâmetro que o Banco estima a partir dos dados da Pesquisa sobre Segurança Financeira e de estatísticas do mercado hipotecário.

3. Dependência da Economia dos EUA e Transbordamentos de Política

Cerca de 75% das exportações canadenses — US$ 450 bilhões anuais — vão para os Estados Unidos, enquanto apenas 18% das exportações dos EUA seguem para o Canadá. Essa assimetria torna o ciclo de negócios do Canadá fortemente correlacionado com o crescimento americano (coeficientes de correlação tipicamente superiores a 0,8), enquanto as condições dos EUA mal registram a influência canadense.

A implicação de política é marcante: o Banco do Canadá não pode se afastar muito da política do Federal Reserve sem provocar fluxos de capital desestabilizadores. Se as taxas canadenses caírem significativamente abaixo das taxas dos EUA, os investidores deslocam recursos para o sul, deprimindo o dólar canadense e potencialmente alimentando inflação importada. Por outro lado, manter taxas bem acima dos níveis dos EUA atrai entradas de capital que valorizam a moeda e prejudicam os exportadores.

O ToTEM III modela o Canadá como uma "economia pequena e aberta" na qual as variáveis dos EUA — produção, inflação, taxas de juros — são exógenas. Isso reflete a realidade: o Fed define a política para as condições dos EUA, e o Canadá precisa responder, não o contrário. A condição de paridade de juros descoberta do modelo permite que as taxas canadenses divirjam das taxas dos EUA apenas se os investidores exigirem um prêmio de risco, que varia com as condições econômicas e as percepções de sustentabilidade fiscal.

Por que Modelos Genéricos Falham para o Canadá

Modelos DSGE padrão desenvolvidos para economias grandes e relativamente fechadas, como os Estados Unidos, deixam de captar totalmente essas características. Eles presumem que os choques de termos de troca são pequenos e infrequentes, que a heterogeneidade das famílias pouco importa para a dinâmica agregada e que as condições externas respondem à política doméstica. Para o Canadá, todas as três premissas falham gravemente — forçando o Banco a desenvolver arcabouços especializados ou aceitar projeções que sistematicamente deixam passar pontos de inflexão.

Características Econômicas Canadenses

Especificações de Economia Pequena e Aberta

O ToTEM III incorpora diversos recursos especificamente projetados para capturar a estrutura econômica canadense e as dependências externas:

Principais Características Canadenses Modeladas:

  • Dependência de Commodities: setor de recursos com preços mundiais exógenos
  • Integração Comercial: alto conteúdo importado e orientação exportadora
  • Integração Financeira: paridade de taxa de juros com variações de prêmio de risco
  • Centralidade do Mercado Imobiliário: riqueza habitacional na otimização das famílias
  • Federalismo Fiscal: modelagem do setor governamental em múltiplos níveis

Modelagem dos Termos de Troca

Mecanismos de Transmissão do Preço de Commodities
Definição dos Termos de Troca

ToTt = (Px,t / Pm,t) * (St / Pt)

Onde Px = preços de exportação, Pm = preços de importação, S = taxa de câmbio nominal

Canais de Transmissão:

  • Efeitos Diretos: mudanças no preço de commodities afetam a produção e o emprego setoriais
  • Canal Cambial: melhorias nos termos de troca valorizam o CAD
  • Efeitos de Renda: receitas de recursos afetam as finanças governamentais e a renda das famílias
  • Resposta do Investimento: investimento no setor de commodities altamente pró-cíclico

Integração do Mercado Imobiliário

Característica HabitacionalImplementação no ModeloAlvo de CalibraçãoRelevância para a Política
Determinação do Preço dos ImóveisEquilíbrio endógenoRazões preço-rendaEfeitos riqueza sobre o consumo
Restrições de CréditoRazões empréstimo-valorDados do mercado hipotecárioImplicações para a estabilidade financeira
Investimento HabitacionalConstrução residencialInício de construçõesAmplificação do ciclo de negócios
Renovação HipotecáriaMecanismo de reset a cada 5 anosEstrutura do mercado hipotecárioTransmissão monetária

Vínculos Transfronteiriços

Integração Econômica Canadá-EUA

Vínculos Comerciais: equações de comércio bilateral com elasticidades de renda e preço relativo
Vínculos Financeiros: paridade de juros descoberta com prêmio de risco variável no tempo
Transbordamentos no Mercado de Trabalho: efeitos da migração transfronteiriça sobre a dinâmica salarial
Sincronização: correlação do ciclo de negócios por meio de vínculos de demanda

Paridade de Juros Ajustada ao Risco

it = itUS + Et[Δst+1] + ρt

Onde ρt = prêmio de risco-país variável no tempo

Limitações do Modelo para o Contexto Canadense

Heterogeneidade Regional: o modelo nacional abstrai das diferenças provinciais
Detalhes Institucionais: representação simplificada do sistema financeiro
Rupturas Estruturais: dificuldade em captar mudanças estruturais permanentes
Dinâmica de Alta Frequência: a frequência trimestral limita a análise de política monetária

Ajustando os Parâmetros

🎛️ Calibrando a Máquina Econômica

Imagine o ToTEM III como uma enorme mesa de mixagem de som, com centenas de botões e controles deslizantes. Cada botão controla o quão sensível são diferentes partes da economia a mudanças. Os economistas do Banco precisam ajustar todos esses botões corretamente para que o modelo se comporte como a economia canadense real.

Como Eles Ajustam os Parâmetros?

1
🔍 Observam os Dados Históricos

Eles estudam décadas de dados econômicos canadenses para ver como pessoas e empresas realmente se comportaram no passado. Se o modelo não corresponde à história, ajustam os parâmetros.

2
📚 Usam a Pesquisa Econômica

Estudos acadêmicos indicam coisas como "quando as taxas de juros sobem 1%, o investimento habitacional cai 3%". Eles usam essa pesquisa para ajustar os parâmetros de sensibilidade.

3
🧪 Testam e Ajustam

Eles rodam o modelo em eventos históricos (como a crise financeira de 2008) para ver se ele prevê o que realmente aconteceu. Se não, continuam ajustando os parâmetros.

0,75
O quão rígidos são os preços
(Mais alto = mais lento para mudar)
2,0
O quanto as pessoas se importam com consumo vs. lazer
0,85
Razão máxima empréstimo-valor para hipotecas
4,0
O quão custoso é para as empresas mudar o investimento rapidamente
⚠️ Por que Isso É Complicado

Ajustar esses parâmetros é parte ciência, parte arte. A economia muda com o tempo, então o que funcionava nos anos 1990 pode não funcionar hoje. É por isso que eles constantemente atualizam e aprimoram o modelo.

Calibração e Estimação

Metodologia de Estimação Bayesiana

O ToTEM III emprega técnicas de estimação bayesiana com priors informativos derivados de evidências microeconômicas e de gerações anteriores do modelo. A amostra de estimação cobre 1981T1-2019T4, com estimação recursiva para validação fora da amostra.

Variáveis Observáveis (14 séries):

  • Crescimento do PIB real (consumo, investimento, governo, exportações líquidas)
  • Medidas de inflação (IPC total, núcleo, preços de importação)
  • Mercado de trabalho (emprego, salários)
  • Variáveis financeiras (taxa overnight, rendimento de título de 10 anos, taxa de câmbio)
  • Setor habitacional (preços de imóveis, investimento habitacional)
  • Preços de commodities (petróleo, commodities não energéticas)

Principais Estimativas de Parâmetros

ParâmetroSímboloMédia a PrioriMédia a PosterioriIntervalo de 90%Interpretação Econômica
Rigidez de Preçosθp0,750,78[0,72, 0,84]Duração média do preço: 4,5 trimestres
Rigidez Salarialθw0,650,71[0,64, 0,79]Duração média do salário: 3,4 trimestres
Custo de Ajuste do Investimentoκ4,03,8[2,9, 4,8]Parâmetro de suavização do investimento
Restrição de Créditom0,850,82[0,78, 0,87]Razão máxima empréstimo-valor
Elasticidade do Comércioη1,51,7[1,3, 2,1]Substituição importado-doméstico

Estratégia de Identificação

Identificação de Choques Estruturais

Choques de Tecnologia: identificados por meio de restrições de longo prazo sobre o crescimento da produtividade

Choques de Política Monetária: restrições contemporâneas sobre a regra de política

Choques de Preço de Commodities: identificação do bloco externo a partir dos mercados globais

Choques de Demanda Habitacional: restrições de exclusão sobre setores não habitacionais

Especificação do Erro de Medida

Ytobs = Ytmodel + vt

Onde vt ~ N(0, Σv) considera a má especificação do modelo

Diagnósticos de Validação do Modelo

Métricas de Desempenho da Estimação

Log-Verossimilhança Marginal: -2.847,3 (melhoria em relação ao ToTEM II)
RMSE (1 passo à frente): crescimento do PIB: 0,89%, inflação do IPC: 0,34%
Desempenho de Projeção: comparável a benchmarks VAR em horizontes de 1-2 anos
Ajuste de Momentos: reproduz com sucesso os principais fatos do ciclo de negócios canadense

Verificações de Robustez: a estabilidade dos parâmetros é avaliada por meio de janelas de estimação recursivas, especificações alternativas de priors e análise de subamostra excluindo períodos de crise.

Canadá vs. Modelos dos EUA

vs Confronto de Modelos Econômicos

Tanto o Canadá quanto os EUA usam modelos computacionais sofisticados para entender suas economias, mas eles são construídos de forma diferente porque os países são diferentes. Vamos compará-los:

ToTEM III (Canadá)

Foco Principal: economia pequena, aberta e dependente de commodities

Recursos Especiais:

  • Setores de petróleo e mineração embutidos
  • Mercado imobiliário superimportante
  • Dois tipos de famílias (poupadoras vs. tomadoras)
  • Forte foco no comércio com os EUA

Melhor Para: entender como choques globais atingem o Canadá

FRB/EUA (Estados Unidos)

Foco Principal: economia grande, diversificada e relativamente fechada

Recursos Especiais:

  • Setor financeiro detalhado
  • Setor governamental complexo
  • Muitos tipos diferentes de empresas
  • Menos focado no comércio internacional

Melhor Para: entender a dinâmica econômica doméstica dos EUA

Diferenças Principais que Importam

1
🌍 Tamanho e Abertura

Canadá: economia pequena, muito afetada pelo que acontece globalmente
EUA: economia enorme, mais isolada de choques globais

2
Estrutura Econômica

Canadá: fortemente dependente de recursos naturais
EUA: mais diversificado entre serviços, manufatura e tecnologia

3
Impacto Habitacional

Canadá: a riqueza habitacional é uma parte enorme das finanças das famílias
EUA: fontes mais diversas de riqueza familiar

O Design do Modelo Reflete a Estrutura Econômica

Essas diferenças de modelagem refletem distinções estruturais genuínas, e não escolhas de design arbitrárias. A ênfase do ToTEM III em setores de commodities, riqueza habitacional e vínculos externos responde às realidades econômicas canadenses, onde esses canais dominam a transmissão. O maior detalhamento setorial do FRB/EUA e a ênfase na microestrutura do mercado financeiro refletem o tamanho, a profundidade e a complexidade da economia americana. Nenhuma abordagem é inerentemente superior — cada uma se otimiza para as características de sua economia-alvo.

Comparação Internacional de Modelos

ToTEM III vs. FRB/EUA: Comparação Estrutural

A análise comparativa de modelos DSGE de bancos centrais revela diferenças sistemáticas que refletem estruturas econômicas subjacentes e prioridades de política:

CaracterísticaToTEM III (Canadá)FRB/EUA (Estados Unidos)Justificativa
Tipo de EconomiaEconomia pequena e abertaEconomia grande e fechadaComércio/PIB: 65% vs 27%
Detalhe SetorialSetor de commodities explícitoProdução agregadaParcela de recursos: 11% vs 2%
Heterogeneidade das FamíliasArcabouço tomador-poupadorAgente representativoEstrutura do mercado hipotecário
Setor HabitacionalIntegrado na utilidadeBloco habitacional separadoRazão riqueza/renda habitacional
Taxa de CâmbioDeterminação endógenaExógena/papel limitadoImportância ponderada pelo comércio
Setor FinanceiroSistema bancário estilizadoMercados de crédito detalhadosComplexidade do sistema financeiro

Abordagens Metodológicas

Estimação vs. Calibração

Abordagem do ToTEM III:

  • Estimação bayesiana com arcabouço DSGE-VAR
  • Priors informativos a partir de estudos microeconômicos
  • Identificação de choques estruturais por meio de restrições
  • Comparação de modelos via verossimilhança marginal

Abordagem do FRB/EUA:

  • Estratégia mista de estimação e calibração
  • Estimação de equação única com correção de erro
  • Ajustes discricionários para características institucionais
  • Validação de forma reduzida frente a episódios históricos

Capacidades de Análise de Política

Vantagens Comparativas

Pontos Fortes do ToTEM III:

  • Análise de choques de termos de troca (volatilidade do preço de commodities)
  • Mecanismos de taxa de câmbio e ajuste externo
  • Cenários de dívida das famílias e estabilidade financeira
  • Transbordamentos transfronteiriços de política monetária

Pontos Fortes do FRB/EUA:

  • Mecanismos detalhados de transmissão de política fiscal
  • Segmentação do mercado financeiro e canais de crédito
  • Política monetária não convencional em larga escala
  • Dinâmicas regionais e setoriais heterogêneas

Limitações Comuns em Modelos de Bancos Centrais

Previsão de Crise Financeira: nenhum dos modelos previu a severidade da crise de 2008
Mudança Estrutural: dificuldade em incorporar mudanças permanentes (digitalização, clima)
Dinâmica de Alta Frequência: modelos trimestrais deixam passar efeitos de política monetária intratrimestrais
Formação de Expectativas: a hipótese de expectativas racionais é cada vez mais questionada

Como é Utilizado

🛠️ Colocando o Modelo para Trabalhar

O ToTEM III não é apenas um exercício acadêmico - o Banco do Canadá o utiliza para decisões reais que afetam milhões de canadenses. Veja como:

Aplicações no Mundo Real

1
Projeção Econômica

O que fazem: rodam o modelo para prever PIB, inflação e desemprego de 2 a 3 anos à frente

Por que importa: essas projeções aparecem nos relatórios trimestrais do Banco e orientam as decisões de taxa

Exemplo: "O modelo sugere que a inflação retornará a 2% até o final de 2025"

2
🎮 Testes de Cenário

O que fazem: testam cenários hipotéticos como quedas no preço do petróleo ou recessões nos EUA

Por que importa: ajuda-os a se preparar para diferentes possibilidades

Exemplo: "Se o petróleo cair para US$ 40/barril, eis como isso afetaria cada província"

3
⚖️ Análise de Política

O que fazem: testam como diferentes trajetórias de taxa de juros afetariam a economia

Por que importa: ajuda-os a escolher a melhor política para o Canadá

Exemplo: "Cortar as taxas agora vs. esperar 3 meses - qual é melhor?"

4
Análise do Mercado Imobiliário

O que fazem: estudam como mudanças de taxa afetam preços de imóveis e dívida das famílias

Por que importa: previne bolhas imobiliárias e protege a estabilidade financeira

Exemplo: "Taxas mais altas vão esfriar o mercado imobiliário de Toronto, mas prejudicar a recuperação de Alberta"

🚨 Estudo de Caso: COVID-19

Quando a pandemia atingiu em 2020, o ToTEM III ajudou o Banco a entender:

  • Choques de Oferta vs. Demanda: a economia estava contraindo porque as pessoas não podiam trabalhar (oferta) ou porque não queriam gastar (demanda)?
  • Eficácia da Política: o quanto cortar as taxas para 0,25% realmente ajudaria?
  • Momento da Recuperação: quando diferentes setores se recuperariam?
  • Riscos de Inflação: os gastos governamentais massivos causariam inflação mais adiante?

Os insights do modelo ajudaram a orientar a resposta do Canadá, incluindo manter as taxas baixas até 2022.

Aplicações de Política

Uso Operacional no Processo de Política Monetária

O ToTEM III serve a múltiplas funções dentro do arcabouço de política do Banco do Canadá, desde a projeção rotineira até a resposta a crises e a análise de política não convencional:

Integração no Processo de Decisão:

  • Rodadas de Projeção: exercícios trimestrais de projeção para os Relatórios de Política Monetária
  • Análise Entre Reuniões: análise de cenários em tempo real entre decisões programadas
  • Avaliação de Risco: análise de cenários de cauda e testes de estresse
  • Suporte à Comunicação: narrativa baseada no modelo para a fundamentação da política

Aplicações Recentes de Política

1. Análise da Resposta à Pandemia (2020-2022)

Análise de Cenários: o ToTEM III decompôs o choque da COVID em componentes de oferta, demanda e incerteza

Avaliação de Política: quantificou a eficácia de diversas ferramentas de política (cortes de taxa, QE, forward guidance)

Impacto Setorial: modelou efeitos diferenciais entre os setores de commodities, serviços e habitação

2. Renovação do Arcabouço de Metas de Inflação (2021)

Avaliação de Meta: simulou o desempenho sob metas de inflação alternativas (1,5%, 2,5%)

Análise de Mandato Duplo: avaliou trade-offs entre os objetivos de inflação e emprego

Moeda Digital: análise preliminar das implicações de uma moeda digital de banco central

3. Superaquecimento do Mercado Imobiliário (2021-2022)

Análise Macroprudencial: interação entre política monetária e restrições de crédito

Transbordamentos Regionais: efeitos dos preços de Vancouver/Toronto sobre o consumo nacional

Estabilidade Financeira: testes de estresse de vulnerabilidade das famílias

Avaliação de Desempenho de Projeção

VariávelHorizonteRMSE (ToTEM III)RMSE (Benchmark)Desempenho Relativo
Crescimento do PIB Real4 trimestres1,12%1,28%Melhoria de 12,5%
Inflação do IPC4 trimestres0,67%0,71%Melhoria de 5,6%
Crescimento do Emprego4 trimestres0,89%0,94%Melhoria de 5,3%
Taxa de Câmbio CAD4 trimestres6,2%5,8%Deterioração de -6,9%

Aplicações de Pesquisa Atuais

Programa de Pesquisa Ativo

Integração das Mudanças Climáticas: incorporação de riscos físicos e de transição ao arcabouço do modelo
Economia Digital: modelagem dos efeitos de produtividade da adoção tecnológica
Dinâmica do Mercado de Trabalho: modelagem aprimorada de participação e fricções de pareamento
Cadeias Globais de Valor: análise de disrupção de cadeias de suprimento e medidas de resiliência

Desafios Operacionais

Dados em Tempo Real: o modelo requer dados totalmente revisados, limitando a capacidade de nowcasting
Rupturas Estruturais: dificuldade em captar mudanças econômicas permanentes durante a estimação
Ajustes Discricionários: ajustes manuais da equipe frequentemente necessários para choques específicos
Comunicação: a complexidade torna desafiadora a comunicação pública dos insights do modelo

Saiba Mais

Quer se aprofundar em como o Banco do Canadá utiliza modelos econômicos? Aqui estão alguns ótimos recursos:

Recursos Técnicos e Documentação

Acesso ao Código e aos Dados do Modelo

Nota: ao contrário do modelo FRB/EUA do Federal Reserve, o código-fonte do ToTEM III não está publicamente disponível. No entanto, o Banco disponibiliza:

  • Documentação Técnica: especificações matemáticas completas nos relatórios técnicos
  • Detalhes de Calibração: valores de parâmetros e resultados de estimação
  • Resultados de Simulação: cenários de política e funções de resposta a impulso
  • Artigos de Pesquisa: aplicações e extensões em working papers da equipe